Portal COICA AMAZONICO
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Coordenadora das Organizações indígenas da Bacia de Amazônica
Agenda Indígena Amazônica
 
    

RETURNING TO THE “MALOCA”
Amazon Indigenous Agenda

1.2 Os Interesses na Bacia Amazônica

Nós afirmamos que são os Estados Nacionais os que promovem e incentivam a invasão e saqueio na Amazônia. Suas intervenções somente garantem o usufruto e depredação de nossos recursos, empobrecendo-os ainda mais. As empresas nacionais e transnacionais são beneficiárias das políticas estatais e avançam cada dia sobre nossos territórios, incluso justificam o ingresso de outros atores como antropólogos em busca de informação para suas teses ou os missioneiros em busca de fiéis para suas crenças, as empresas de todas as ramas em busca de produtos e mão-de-obra, o Estado em busca de contribuintes e as ONGs em busca de justificação de suas ideologias, projetos e vagas de trabalhos. Em outras palavras, estamos contribuindo, em síntese, não somente para a destruição do nosso sistema de produção e consumo, mas também para a diminuição das oportunidades de continuidade em um ambiente são e duradouro, que está cada vez mais descapitalizado de recursos.

Estes grupos de interesses trouxeram as necessidades e todos os valores que antes somente conhecíamos nos mitos. A ausência de um diálogo intercultural nos transformou de autônomos e livres a povos dependentes, empobrecidos e excluídos. Como mão-de-obra estamos cada dia mais envolvidos nas redes do mercado do sistema mercantilista e afastados de nossos sistemas socioeconômicos e culturais. Experimentamos uma nova forma de relação social, na qual os jovens, por ganhar um salário, deixam a vida comunitária para converterem-se em peões de fazendas, trabalhadores de empresas florestais e de mineração, barcos de pesca ou em agentes de “desenvolvimento” nos projetos das ONGs. Constatamos que quase todos nós na Amazônia produzimos para a economia de mercado e negociamos diretamente com ela, debilitando o sistema de reciprocidade – produção, distribuição e consumo, o uso dos recursos naturais, a mobilidade social e, sobretudo, a mudança nos padrões alimentícios.

A ignorância e o egoísmo dos colonizadores, dos grupos de poderes econômicos e religiosos atuais impediram e impedem que vejam quão sustentável eram e continuam sendo nossos sistemas sociais e econômicos. Estavam e estão impossibilitados de entender que estamos nus quando tiramos nossas pinturas e colares. Jamais entenderam que nossos deuses estão em todos os lados porque suas igrejas são as cascatas, os montes, a selva. Não entendem que não estamos sós, mas que compartilhamos a vida com todos os demais seres do universo e, fundamentalmente, que o que fazemos ou deixamos de fazer está guiado pelos espíritos. Incapazes de ler em nosso livro sagrado, nos impuseram suas crenças, sua educação, seu sistema econômico, suas doenças, seu sistema político e suas leis. No entanto, estamos e seguiremos vivos, pois nossa missão não se cumpre somente durante nossa permanência na terra.

Os governos latino-americanos justificam a introdução de medidas de inspiração mercantilistas em áreas sociais, políticas, econômicas e em nossos territórios, com o argumento de que são absolutamente necessárias para atingir o desenvolvimento e a democracia. As mudanças estruturais, resultado deste processo, nos preocupam, pois, constatamos que a soberania dos Estados é cada vez mais fraca sobre os territórios e a economia. E, principalmente, quando vemos o desaparecimento de valores e princípios humanos e espirituais, que garantiram o equilíbrio e respeito à natureza e seus processos por séculos.

Nos posicionamos contra a colonização como processo de ocupação da Amazônia com intuito de integrá-la às respectivas economias nacionais e ao mercado mundial. Através do paulatino descobrimento do imenso potencial econômico que encerra a biota da região e outros recursos do subsolo, coloca a Amazônia na perspectiva de uma maior ocupação e exploração. Neste contexto, nós somos os que estamos assumindo de maneira extremamente negativa os custos da integração econômica da Amazônia.


 

 
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