2.5.5 A Interculturalidade
Cada um de nós como povos temos muitíssimas particularidades, é nosso desenvolvimento nas condições de cada país. Então, por um lado, é um árduo trabalho formular estratégias comuns, mas por outro, também é um fato que compartilhamos grandes problemas que devem ser abordados desde nossa identidade, e que deve enfrentar uma relação entre nossa cosmovisão e a cultura ocidental. Por isso é fundamental a participação dos sábios, dos anciãos, portadores dos conhecimentos coletivos e especialmente das sabedorias ancestrais neste processo de Formação Acadêmica e Científica.
A formulação do Plano Estratégico neste campo é a articulação regional para a formação e gestão de Recursos Humanos. Em primeiro lugar, para sua implementação, é necessário ter claro quais são as funções criticas que devemos cobrir, quais são os requerimentos dessas funções e qual é a diferença entre os requerimentos e os recursos reais que dispomos. A formação e gestão de recursos humanos é vital para que possamos conseguir a defesa de nossos direitos e a consolidação das organizações para melhorar a vida de nossas comunidades.
Nos próximos anos, a Formação Acadêmica e Científica será o fator decisivo para alcançar com êxito os objetivos estratégico propostos na Agenda Indígena Amazônica. Vai estar diretamente relacionada com a capacidade que nossas organizações tenham para formar, promover e reter os intelectuais, líderes e técnicos indígenas.
Durante as décadas de oitenta e princípios de noventa o tratamento da interculturalidade na educação esteve fundamentalmente dirigido a nosso mundo e se caracterizava por uma polaridade de aprendizagem e ensino do considerado “próprio” e do chamado científico ocidental. Em outras palavras, o significado e a prática da interculturalidade estiveram, no melhor dos casos, ligados, à inclusão de alguns de nossos conhecimentos nas práticas escolares. Em muitas ocasiões nossa inclusão foi feita desde uma visão folclórica.
Ao longo dos últimos anos se enriqueceu o conceito de interculturalidade como fruto dos debates ocorridos na região e em outros continentes. De tal maneira que se ampliou o conceito, que esteve inicialmente centrado no aspecto curricular e, particularmente, na inclusão de saberes indígenas, através da incorporação da dimensão social, vivência afetiva do processo intercultural e da importância que dada ao conhecimento do “outro”, entendendo a este em múltiplos níveis e não somente em função de características étnicas. Ao longo deste processo também se identificou o conflito como um elemento característico da relação intercultural e se salientou a necessidade de trabalhá-lo desde a educação.
Desta maneira, a conceitualização sobre a interculturalidade avançou de maneira significativa em alguns de nossos países e neles se assume a diversidade cultural como um potencial para a construção de sociedades realmente democráticas e como a base sobre a qual se sustenta o desenvolvimento de processos educativos pertinentes e significativos.
O descobrimento da diversidade como riqueza e a experiência de mais de três décadas de desenvolvimento de propostas de educação bilíngüe em alguns dos países enriqueceram a maneira de conceituar o tratamento dos idiomas na educação do bilingüismo e plurilingüismo. Na atualidade se reconhece a realidade multilíngüe destes países e a diversidade de situações de bilingüismo e de contato de línguas que esta gera. De tal maneira, se superou a tendência de equiparar o idioma materno e o castelhano ou outro idioma da colonização com a segunda língua e de aceitar somente estes, ao assumir a existência de uma diversidade de línguas e das diferenças que se dão ao interior de cada uma delas, e a necessidade de dar-lhes um tratamento adequado. Desde esta perspectiva, se promove o desenvolvimento da língua materna (ou de uso predominante), seja esta indígena ou castelhano, a aprendizagem de uma segunda língua, seja esta castelhano ou língua indígena, e a aprendizagem de ao menos uma língua estrangeira.
No entanto, nos casos da região, a aprendizagem de idiomas indígenas está limitada a contextos indígenas e, particularmente, a aqueles com população vernáculo falante, salvo algumas exceções promovidas por programas de Educação Intercultural Bilíngüe.