
2.5. FORMAÇÃO ACADÊMICA E CIENTÍFICA - FAC
Possibilitará a aquisição de novos conhecimentos que nos permitam tomar decisões sobre a base de nossa cosmovisão, nossos territórios, a natureza e a própria vida.
2.5.1 Desenvolvimento Conceitual e Problemática
Nossa formação educativa é dada pelos ensinamentos entre a vida prática e espiritual da vida cotidiana. Um homem e uma mulher temos no seio da coletividade atribuições específicas e complementares em função a suprir as demandas emanadas do grupo social ao qual pertencemos. Assim, o que sabemos, somos e seremos, o que construímos coletivamente entre gerações e gerações ao longo de milhares de anos conjugando a vida material e os ensinamentos espirituais. Falar de 500 anos de História é tentar ocultar um passado e pretender impor uma verdade. Porém, a alteridade de nossos ancestrais não permitirá essa prepotência, e nossa história registra um tempo que vai muito além da chegada dos europeus. Toda sabedoria milenar está registrada nas rocas, nas cerâmicas, nos mitos, nas canções, no manejo dos seres do universo material e espiritual. Os achados arqueológicos são provas de presença e existência que sobrevivem desde um tempo que vai além dos 12 mil anos (29).
A formação acadêmica e científica possibilitará a aquisição de novos conhecimentos que, em conjunto com nossa cosmovisão, permitirá tomar decisões sobre nossos territórios, a natureza e a própria vida. Como povos, temos consciência de que a Amazônia é considerada como resposta às carências planetárias, e em seu curso de apropriação histórica foi vista como “vazio demográfico” depois como “pulmão” e, na atualidade como o “depósito do mundo”. Cremos que a sociobiodiversidade existente pode manter seus padrões biológicos, ecológicos e socioculturais, dar respostas a algumas das doenças que assola o planeta, inclusive as espirituais. Contudo, o que está acontecendo dentro da selva, tanto com o ambiente natural como com seu povo, vão no sentido contrário. Os projetos de desenvolvimento “sustentáveis” e as atividades de exploração econômica estão pondo em risco e promovendo o desaparecimento de povos amazônicos. O desaparecimento do ser humano, guardiões das ciências e tecnologias geracionais, significa a eliminação do conhecimento sobre os animais, as plantas. Pois na Amazônia a universidade somos nós os povos, nossos livros são os anciãos e suas sabedorias desenvolvidas milenarmente em nossa vida coletiva.
Nossas ciências são saberes experimentados e extraídos dos ensinamentos dos objetos da arte de nossos ancestrais. É através dessas formas de ensinamentos que sustentamos nosso viver, nosso caminhar e acontecer histórico. São práticas de vida que geram vida, e ganham força em cada nascimento de um ser, seja humano ou não. Os Estados e as Sociedades em geral necessitam ver dentro de si e de perto a vida material e espiritual, e o caminho que estamos seguindo e, então, procurar, a partir de nossos valores, construir alternativas para as crises das sociedades atuais. O uso e manejo dos recursos naturais por séculos, fortalecem nossa afirmação de que nós não somos pobres e muitos menos miseráveis. O que vivemos hoje é a descapitalização de nosso acervo sócio-ambiental e, por isso, não estamos dispostos a ficar esperando o colapso total de nossos recursos e de nós mesmos, em nome de um desenvolvimento imposto e que responde a necessidades alheias. Esperamos que muitos estejam conosco neste esforço de seguir nosso próprio processo social, econômico e cultural com nossos padrões de ensinamentos, segundo os quais se vive e deixa viver.
Nossos conhecimentos não são de domínio público, é propriedade cultural e intelectual coletiva, protegido sob nossos direitos consuetudinários. O uso não autorizado e a apropriação indevida são uma usurpação” (30). Registramos nossa posição ante os processos de mercantilização de nossas informações coletivas, as quais são fruto de nossos experimentos e trabalho geracional. Por esse motivo não podem ser tratados e usados como bem de consumo privado e lucro de poucos. Sua utilização somente tem sentido se está em função de uma coletividade. Isto é o que queremos que saibam, os Estados, as empresas de diversos ramos da Amazônia ou de outras regiões. É nossa posição política e identidade, sobre o processo de relação e proximidade que desejamos ter com os outros setores da sociedade e com os Estados.
Exortamos que se respeite a diversidade das culturas existentes no mundo, e de maneira muito particular, aquelas existentes entre nós. Se não reconhecem nossos padrões societários distintos, não se pode distinguir e garantir nossos direitos como tais. Se ainda existimos é devido à diversidade de nossas culturas, como trincheiras que impediram e ainda seguem protegendo nossa destruição. Os colonizadores e os neo-colonizadores, não estavam e nem estão acostumados a tratar as diferenças. Em sua visão limitada, o que eles não entendem, costumam fazer desaparecer. Contudo, nós não estamos de acordo com essa premissa, pelo que porfiamos de que nossa espiritualidade, nossas culturas e nossos deuses, nos mantêm firmes, e acima de tudo dispostos a continuar construindo um mundo humano tanto para nós e como para as gerações futuras, pois cremos que não herdamos a terra de nossos antepassados, mas que a pedimos emprestado às gerações futuras (31).
Nossa sabedoria e informações privilegiadas é nossa grande maloca, a qual voltamos com a Agenda Indígena Amazônica, ou seja, valorizamos ainda mais o saber ancestral, a relação harmoniosa com o meio. É sentir o prazer na dança que enlaça o corpo e o espírito, é proteger nossas sabedorias, tecnologias e lugares sagrados. É sentir que a maloca está dentro de cada filho do sol, do vento, das águas, das rocas, das árvores, das estrelas e do universo. É no ser, um ser individual e ao mesmo tempo coletivo, vivendo no tempo circular do grande retorno, onde o futuro está sempre atrás é o porvir, o presente e o passado diante da gente, com os ensinamentos e as lições individuais e coletivas do processo de vida imemorial.
A construção dos conceitos e a afirmação dos valores nela contido, somente pode realizar-se em coletividade. Nós, como povos, estamos convencidos de que nossa existência é determinada pelo equilíbrio e a simbiose entre o material e o espiritual. Uma vida inspirada na filosofia do Sacha Runa Yachai – a sabedoria do homem da selva –, a que compreende três grandes princípios ou códigos próprios. O “Suma Kausay – a vida em plenitude, íntegra, sã no espiritual, físico, ético, moral, intelectual. Fatores que permitem existir as presentes e futuras gerações. O Tukuy Pacha – princípio que alude a todo o conhecimento, a sabedoria e a aprendizagem. Trata-se do tempo que transcorre para entender, compreender e aprender o próprio e o alheio. Nos permite ver na escuridão, escutar em meio do ruído e falar quando não há voz. O Mushuk Allpa, não somente significa a nova terra, mas a relação sagrada com a Pachamama, entendida como o todo que integra o Ukupacha, o Jawapacha e o Kaypacha, o essencial destes princípios é a renovação – a selva em seu conjunto nasce, cresce, se expande, adoece, se reproduz, se move e se renova – em um ciclo permanente no qual há reciprocidade e diversidade, para que a terra sempre esteja renovada.” (32).