2.4.2 Conhecimentos Coletivos e Sabedorias Ancestrais
Como povos, em milhares de anos compartilhamos a existência com o meio ambiente, desenvolvendo um conhecimento profundo da realidade e de si mesmos. Todo esse saber estava dado para satisfazer suas necessidades. Os homens e as mulheres tiveram acesso aos conhecimentos através da educação que as gerações adultas desenvolviam para as novas gerações. A isto denominamos “conhecimentos coletivos”. Contudo, ao mesmo tempo, alguns integrantes acediam a conhecimentos altamente especializados, que é considerado de muita importância e por isso não o transmitiram a todos, mas a alguns sábios das novas gerações que cumpriam certos requisitos pessoais e sociais. A este tipo de conhecimentos especializados, quase secretos para a maioria das pessoas, lhes denominamos Sabedorias Ancestrais.
Os Conhecimentos Coletivos são todas aquelas informações que serviram a nossa existência para enfrentar as situações concretas de necessidades humanas. Assim, temos os conhecimentos relacionados com a caça, a pesca, a coleta, a agricultura, o artesanato, a metalurgia, a criação dos filhos, a saúde física e mental, a ocupação do tempo livre, a música, a dança, a pintura, a preparação dos alimentos e sua conservação; as vestimentas, as festas, a reprodução humana.
Como conhecedores do bosque, não processamos essa diferenciação ou especialização. Na Amazônia crescemos mantendo uma baixa diferenciação entre nós, razão pela qual conhecemos todo o necessário para subsistir. Esta forma de desenvolvimento está vinculada à forma de ocupação do espaço amazônico, que não suporta grandes conglomerados de pessoas e requer sempre um processo de mobilidade demográfica estacional e permanente. Por isso, também, quando em uma comunidade cresce muito a população, se torna necessário ampliar o uso do bosque; e aqueles que migram devem levar todas as informações necessárias para reproduzir...
As Sabedorias Ancestrais, por seu lado, são sapiências vinculadas a conhecimentos altamente especializados, que requerem dos sujeitos que adquirem determinados dotes e condições. As sabedorias vinculam o mundo real do bosque e o mundo espiritual. Por esta razão, as pessoas que possam aceder a estas sabedorias devem demonstrar, através de ritos e exigências muito fortes, sua fortaleza espiritual e física. Nenhuma sabedoria especializada pode transmitir-se a uma pessoa que não é capaz de jejuar por um longo tempo; de retirar-se ao bosque para conviver com ele em absoluta solidão; de beber as plantas sagradas e ter a visão.
Como povos tivemos, por isso, uma pequena elite de sábios cujas denominações e características dependeram de cada povo: em ashaninka, são os sheripiari; para os shipibo são os Onanya; nos Yine são Kahonxi; os Shuar os chamam Uwishin, e assim cada povo denomina de diferente maneira a seus sábios. Eles são os depositários de nossa memória coletiva, transmitida de geração em geração a pessoas eleitas para essa tarefa. Apesar de nossos esforços coletivos, estas sabedorias ancestrais foram se perdendo paulatinamente, nos últimos anos, como conseqüência das mudanças que aceitamos e, muitas vezes, rejeitamos a nós mesmos, quando chamam nossas sabedorias ancestrais de diabólica e de “bruxos” e “demônios” a nossos sábios, principalmente pelos clérigos e pastores das igrejas ocidentais, que afastaram destas sabedorias os jovens e tornam cada vez mais difícil que os sábios transmitam suas sabedorias. Hoje, os interesses econômicos, em particular, estão atentos a estes conhecimentos porque percebem que eles podem salvar a humanidade de tantas doenças e desgraças produzidas pela ambição e a confrontação com a natureza. Por esta razão, agora mais que nunca, devemos apoiar todo esforço por continuar a cadeia de transmissão destes conhecimentos, que resultam alegrar nossos deuses ancestrais e os anciãos possuidores de sabedorias. Que os conhecimentos ancestrais não desapareçam!