Portal COICA AMAZONICO
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Coordenadora das Organizações indígenas da Bacia de Amazônica
Agenda Indígena Amazônica
 
    

RETURNING TO THE “MALOCA”
Amazon Indigenous Agenda

2.1.3 A Sustentabilidade Humana é um “Voltar à MALOCA”, Conjugando o Saber Ancestral e o Conhecimento Ocidental

Embora seja certo que nos organizamos para defender nosso território, nossa autonomia e livre determinação, continuando o esforço de nossos ancestrais nessa direção, não podemos ignorar os fatores externos que ameaçam alterar nossos sistemas sociais de organização e de convivência com a natureza. Ao recuperar desde nossa cosmovisão o conceito da sustentabilidade humana, estamos retomando o caminho e “Voltando à Maloca”. Ao regressar, percebemos que a convivência com os outros sistemas socioculturais possibilitaram que nos adentremos em sua lógica e inclusive incorporemos algumas de suas práticas e valores, mas isso não deu sentido a nossas vidas. O vazio, principalmente espiritual, que vivemos na atualidade é, em grande medida, resultado do abandono e dos ensinamentos e práticas que guiaram nossos ancestrais por séculos.

Nestes mais de 500 anos de convivência direta e indireta com os agentes do mundo ocidental aprendemos muito, a tal ponto de nos comportarmos como o caçador de javalis do conto dos Ayereo – das terras baixas da Bolívia. Contam eles que: “ um homem gostava de caçar javalis. À medida que seu desejo por capturá-los crescia, se embrenhava cada vez mais na selva. Ele não sabia que essa era a tática dos animais para atraí-lo e convertê-lo em um deles. Um dia, o levaram tão adentro que o homem voltou com seu corpo coberto de pelos”.(14) Algumas de nossas atitudes, sobretudo no campo social e econômico, revelam que estamos presos, muito adentro da selva de pedra, convertidos em “homens modernos” e possuidores de todas as misérias humanas.

“Voltar à maloca” torna-se oportuno e fundamental. É voltar a pensar e agir sustentavelmente, identificando o que nos torna fortes e o que nos enfraquece como povos indígenas. Nos afastamos de nossos princípios maiores e, especialmente, quando nos encontramos nos centros urbanos, somos presas e caímos facilmente nas armadilhas do poder econômico e do individualismo. Com essas amarras, nos tornamos agentes suicidas em nossos sistemas sociais e culturais. A vergonha de ser o que somos gera mudanças em nós como pessoas e procuramos fazer isto também aos outros.

Afastados de nosso sistema socioeconômico e cultural, no qual não se permite que uma pessoa trabalhe para o usufruto de outro, na atualidade experimentamos de tal forma da relação social que, muitos jovens, por ganhar um salário, deixam a vida comunitária para tornarem-se agentes do “desenvolvimento”. Voltar à Maloca é porque constatamos que quase todos nós na Amazônia produzimos para a economia de mercado e negociamos diretamente com ela, seja através da venda de nossos produtos ou externa. Isso quebrou o sistema de reciprocidade – produção, distribuição e consumo –, alterou o uso dos recursos naturais e a forma de mobilidade social e, principalmente, a mudança nos padrões alimentícios.

Voltar à maloca é buscar e resgatar os ensinamentos que equilibram a qualidade, na simplicidade, marca da existência sã de nossos ancestrais, ou seja, aproveitar o que o mundo ocidental oferece, sem abandonar valores e práticas sociais e culturais próprios. Saber que a produção e o consumo são eixos que se articulam dentro do processo de organização social e servem para fortalecer as redes de intercâmbio dos membros do grupo. Cada núcleo familiar, em uma comunidade, são pequenas unidades de produção e consumo. Porém, não se produz tudo o que se necessita, mas se garante o abastecimento de uma cesta diária de produtos básicos por meio das redes de intercâmbio, mantidas pelo sistema de reciprocidade. Voltar à Maloca é constatar que apesar de todas as mudanças, este sistema segue vigente, incluso entre aqueles que vivem nos centros urbanos.

Voltar à maloca é entender que não é possível discutir relações entre atores sociais que estão presentes no mercado, sem diferenciá-los. Nós temos uma dinâmica própria de assimilação e de participação nos intercâmbios comerciais tradicionais, e é com essa visão que nos acercamos à economia de mercado, seja como mão-de-obra ou como fornecedor de matéria-prima, porém a lógica do mercado a que nos incorporamos não é de reciprocidade, é de exploração. Portanto, presos por um padrão de consumo do qual temos pouca chance de escapar e em desvantagem tecnológica, usamos o que está mais perto, os recursos naturais e nossa própria vida cotidiana. Os dois tornam-se mercadoria. Os recursos naturais para a venda em grande escala e a nossa vida cotidiana é explorada como entretenimento para os turistas “solidários”. Assim, abrimos nossas comunidades para atividades comerciais como o ecoturismo, cujo resultado mais drástico é o abandono de nossas tarefas diárias de continuidade para nos tornarmos mão-de-obra para o mercado do entretenimento.

Nossas vidas comunitárias eram vistas como ociosas e essa ociosidade era a causa de nossa pobreza material. De tal modo que era fundamental que nos tornássemos, no menor espaço possível, seres produtivos e de forma urgente com participação no mercado, mas não nos padrões justos de equilíbrios sociais – mais justo – porque era o único que oferecia maior vantagem e, em pouco tempo, a possibilidade de maiores rendas e em seguida seríamos ricos e, logicamente, sairíamos da miséria em que nos encontrávamos. Participar no mercado internacional era a grande saída, incluso para muitas comunidades que nunca tinham manejado dinheiro e sua relação com o comércio local era, até então, esporádica e baseada em sistema de troca. Evidentemente que para atender tal exigência, se necessitava assistência técnica e assim fomos invadidos por um grupo de pessoas que jamais tinham estado conosco e passaram a “ensinar-nos” de tudo. Multiplicaram-se os famosos projetos produtivos comunitários e as cooperativas de comercialização. O resultado de todo este processo hoje em dia foi, maior dependência dos produtos manufaturados; dependência de recursos externos para todo tipo de atividades comunitárias e, sem dúvida, o enfraquecimento de nosso padrão sustentável. Infelizmente, nossos “aliados” nos olhavam, mas não nos viam.

Voltar à maloca é retornar para nós mesmos, é valorizar ainda mais o saber ancestral, a relação harmoniosa com o meio. É sentir o prazer na dança que enlaça o corpo e o espírito, é proteger nossas sabedorias, tecnologias e lugares sagrados. É sentir que a maloca esta dentro de cada filho do sol, do vento, das águas, das rocas, das árvores, das estrelas e do universo. É não ser um ser individual, mas um ser coletivo, vivendo no tempo circular do grande retorno, onde o futuro está sempre atrás, é o porvir, o presente e o passado diante da gente, com os ensinamentos e as lições individuais e coletivas do processo de vida imemorial. É o que a COICA está fazendo, e é visível na Agenda Indígena Amazônica, retornando a nossa grande maloca que é a Amazônia e os povos que a constituímos.
     

(14) COICA, Revista Nossa Amazônia, Nº 20

 

 
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