Portal COICA AMAZONICO
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Coordenadora das Organizações indígenas da Bacia de Amazônica
Agenda Indígena Amazônica
 
    

RETURNING TO THE “MALOCA”
Amazon Indigenous Agenda

2.1.1 Desenvolvimento Conceitual e Problemática

O marco geral do que vem a ser a sustentabilidade humana está baseado em nossa cosmovisão, onde se entrecruzam sistemas de relações nos quais estão envolvidos seres humanos e ambientes naturais em profunda sincronia com o mundo espiritual, no qual se alimenta a vida diária do indivíduo e da coletividade. As mudanças que vêm sucedendo nesta matriz de relações, faz com que a COICA proponha uma reflexão sobre o que está acontecendo conosco e com o entorno. Guiada pela profunda relação com seu acontecer histórico, pelo grande esforço de nossa continuidade física e cultural e o desafio de nossas organizações.

É assim que a COICA propõe redefinir os padrões sociais e econômicos, ao resgatar desde nossa cosmovisão a sustentabilidade. Consideramos necessário que ocorram mudanças nas estruturas sociais, econômicas e culturais. Assim, inovamos na relação entre os seres, enfatizando o sentido amplo da vida. Quando nos referimos ao conceito de “sustentabilidade” a enlaçamos com o ser humano e a definimos como a afirmação de princípios e valores sociais, morais e espirituais, onde o ser humano vive em um ambiente são, sustentável e duradouro. Com ações sociais justas e não apenas com visões mercantilistas, como aspira o modelo econômico e social atual. Que estes valores nos permitam viver com dignidade em nossos territórios, sem que seja necessário mendigar nas cidades (8) . Em síntese, é viver a vida a plenitude.

É óbvio que as relações estabelecidas nas últimas décadas entre nós e o mundo externo possibilitaram o surgimento de visões que estão em desacordo com nossa maneira de pensar e existir. Mas nós ainda desenvolvemos ferramentas internas para evitar a sedução pelas práticas e pelo discurso de “progresso”, de “desenvolvimento” a fim de que sigamos em um mundo são e duradouro coletivamente. Nossas regras e princípios, estão sendo exercidas nos Planos de Vida, ferramenta que nos ajuda na planificação e no entendimento sobre nossa vida para romper o equilíbrio que temos com os deuses, com os homens e com o bosque, com a terra, com as águas e com nossos enxós (9). Os planos de vidas estão fundamentados nos princípios da reciprocidade, da responsabilidade compartilhada e da diversidade, valores maiores que orientam o exercício da planificação com visão integral, desde nós mesmos. Não são o início e muito menos o fim, mas um meio para garantir nossos direitos e diversidade, tanto jurídica como social e espiritualmente.

Nossa sustentabilidade humana esteve garantida ao longo de toda a história existencial de ocupação amazônica graças ao manejo dos recursos da selva e a capacidade de produção de bens a partir do padrão de vida dos ancestrais, que concilia a simplicidade com a qualidade por meio da autonomia, da autogestão e da produção destinada a suprir as necessidades básicas do grupo como um todo. Assim, de acordo a nossas necessidades, produzimos instrumentos para a caça e a pesca, vestimenta de algodão ou de palha de tucum para agasalhar-nos; adornos, pulseiras, colares, anéis; pinturas corporais com a seiva da palmeira-real e o urucum para embelezamento e distinguir as funções e posições; cadeiras e construções para proteção. Realizamos, também, festas culturais com instrumentos musicais como: tapuru, caracú e flautas com sons específicos. Produzimos artigos para a casa com argila, como pratos, copos e panelas, de distintos tamanhos e usos, sobretudo as especiais para as festas e bebidas alcoólicas. Fabricamos bebidas de mandioca, milho, amendoim e outros, construímos meios de transporte como canoas, caminhos e outros. Todo os materiais eram tirados da selva e do rio, sem prejudicá-los nem alterar sua biologia” (10).

O manejo adequado e a domesticação de plantas e animais foram e continuam sendo fundamentais na produção e consumo, atendendo a oferta de produtos do ambiente e das necessidades humanas. Aspectos importantes nas economias que estão fundamentadas na reciprocidade, entre os membros de um povo e as relações. O sistema que por séculos garantiu o abastecimento e a reprodução de nossas unidades familiares – a que se incorporam todos os membros, segundo sua função e responsabilidade – no tecido social coletivo. Cada unidade familiar deve oferecer bens e serviço à coletividade e assim, o sistema garante não somente o abastecimento do núcleo familiar, como a satisfação das necessidades do conjunto como um todo. Uma economia desenvolvida a partir da independência monetária.

Com a chegada das manufaturas, diminuiu o comercio interétnico. Porém, continuamos nutrindo a economia baseada na troca de produtos e serviços nos povoados, e cada vez mais participando no mercado monetário, ofertando tanto produtos da selva, como das chácaras, assim como serviços, através dos projetos como por exemplo de ecoturismo, experimentados na Amazônia. Contudo, a tendência em muitas comunidades e, principalmente daquelas que estão muito próximas aos centros urbanos, é de gerar renda e sustento através da venda de sua força de trabalho. Isto gera um custo social enorme, pois este processo debilita o sistema de reciprocidade, sem mencionar que a participação no mercado vem gerando uma mudança na base de produção, passando de diverso a monocultor.

A monocultura, implantada na era dos projetos de desenvolvimento em nossas comunidades, destinados à geração de renda, via o ingresso ao mercado como fornecedores de produtos, ocasiona não somente prejuízo à diversidade milenar, mas também à função social e reprodução cultural das chácaras. Nesse sentido, observamos mudanças em nossa base social, política e econômica, com a introdução de outras formas de manejos e visões. Contudo, o que nos torna distintos dos demais é que nossas relações sociais e espirituais no seio dos povos são marcadas por um profundo sentido ético de reciprocidade e responsabilidade compartilhada, base fundamental de nossa existência ancestral como povos, o que reivindicamos que sejam reconhecidos e respeitados.

Na Cúpula Indígena, na cidade de Kimberley, na África do Sul, exigimos nosso reconhecimento e aceitação nacional, regional e internacional. Exigimos também que nossos sistemas de conhecimentos sejam respeitados, promovidos, protegidos, e assegurados como direitos intelectuais coletivos. Estamos convencidos de que deste modo se fortalecerá e manterá a sustentabilidade humana e ambiental de nossos territórios.

A responsabilidade compartilhada, conceito primordial que conecta as gerações presentes e futuras, é a consciência da responsabilidade que estreita nossas relações com os ancestrais e nos compromete com as gerações futuras. A Amazônia é digna de ser vivida por sempre, é nosso desafio seguir defendendo-a com o objetivo de garantir nossa existência como povos e a Amazônia como espaço livre e de paz. Este espaço físico e simbólico é nossa inspiração e o grande exemplo de autogestão e reciprocidade. O oxigênio que sai de suas veias é vida para todas as vidas. Nós não nos opomos ao desenvolvimento, tampouco à pesquisa ou ao descobrimento de novas alternativas de continuidade para a humanidade, mas queremos que se respeite nossa forma de vida, nossa diversidade sociocultural, nossa sabedoria e nossa existência.

A sustentabilidade humana – nossa prática coletiva – é o exercício de um direito das presentes e das futuras gerações. Rompe com o imediatismo e a mentalização do modelo atual de desenvolvimento capitalista. A COICA, através de suas organizações, sintetiza e a define em termos gerais e simples desde suas práticas. Uma visão integral do manejo do território, como afirma a CIDOB, a visão do bom viver, concebe a CONFENAE, um posicionamento político, com a tomada de posição identitária, desenvolvida pela OPIAC, a afirmação da alteridade, expressa pela COIAB, a maneira ancestral de ocupar nossos habitats, reiterada pela ORPIA. O compromisso de nossa vida temporal, que segue a milhares de outras vidas em tempos passados, presentes e futuros, e se inscreve no cumprimento do dever espiritual para salvaguardar nossas terras sagradas, como testifica a FOAG. O sentido comum, dos homens e mulheres de um povo, suas idéias sobre a origem e o fim da vida, os valores mais significativos sobre os que se assentam como grupo humano, o pensamento e conhecimento sobre cada um dos fenômenos que o rodeiam, como reitera a AIDESEP. A partir dessa definição horizontal, as organizações estão trabalhando no sentido de tornar realidade principalmente o que elas afirmam como a visão integral dos processos societários em que se conectam as relações sociais, políticas, econômicas, culturais, ambientais e espirituais dentro do território.
  

(8) (Marco Geral da AIA, COICA-2002).

(9) Regulamento da Circunscrição Territorial SHUAR, das Associações BOMBOIZA, LIMON, MAYAIK, NUGKUI, SANTIAGO E SINIP da zona norte da cordilheira do CONDOR: 2003:1.

(10) Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – membro da COIAB do Brasil, informativo Trimestral WAYURI, Janeiro a março 2003:08.

 

 
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